terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sentinela do Tempo

Fortaleza nos anos de 1846 á 1867 viveu o mais longo período sem estiagens da sua história, de 1846 a 1876. A construção do Sobrado Doutor José Lourenço data deste intervalo por volta da segunda metade do século XIX. Essa época foi chamada de “ Belle Époque“ , a expressão francesa traduzia a euforia de setores sociais urbanos com as invenções e descobertas da segunda Revolução Industrial (1850-1870). A partir desse período, a Capital do Ceará ganhou novos ares urbanos, expandiu-se e tornou-se um dos oito primeiros centros do Brasil. A elite da cidade ficou empolgada com o rápido crescimento de fortaleza e decidiram modernizar a cidade com reformas e empreendimentos nos moldes dos padrões estéticos das metrópoles europeias.

O Sobrado é um remanescente deste período, ele era uma espécie de farol que irradiava a ordem médica, representado pelo seu proprietário, Doutor José Lourenço, uma figura respeitável na província, do ponto de vista de sua credibilidade como médico e de sua ética como homem público; Explica Gilmar de Carvalho, Professor do Mestrado em História Social da UFC. O Sobrado Dr. José Lourenço tem uma especificidade, como chama a atenção do professor Liberal de Castro: seus três andares são, frequentes no Recife , eram inéditos pras bandas de cá. Assim sendo, além de belo em seus detalhes de florões, azulejos e rosáceas, ele tinha o ar insolente de quem olhava a cidade de cima. Era o mais alto, esguio e, por isso mesmo , elegante. Trazia uma escultura em seu topo, da qual restaram apenas vestígios de mármore. Provavelmente uma figura mitológica, mas não se tem totalmente certeza como esclarece Liberal de Castro que além de professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC que também é um dos fundadores do mesmo. Um fato curioso sobre o Sobrado é como ele foi pouco fotografado, alguns postais do início do século XX mostram a Rua do Major Facundo, mas é o palacete do Barão de Ibiapaba, na esquina com a Rua do Senador Alencar quem rouba a cena e enche o quadro; do Sobrado ficou registrada a silhueta entrevista pela projeção lateral que dá para o norte, explica Gilmar de Carvalho. Com o passar do tempo muitas das técnicas construtivas do Sobrado se Perderam, o que, se por um lado dificulta, por outro valoriza o trabalho de restauro, coordenado pelo arquiteto Domingos Linheiro. Azulejos tiveram de ser refeitos, o mosaico hidráulico era de procedência europeia, o lodo cobria detalhes e engastes, parte da pintura decorativa interna precisou ser refeita, o tempo corroeu as tábuas corridas e fez interferências que precisavam ser corrigidas para que tivéssemos o Sobrado de volta ao seu esplendor, explica Domingos Linheiro.

E se o Sobrado pudesse falar o que ele nos contaria? Decididamente, o Sobrado teria muito o que contar. Ele nos contaria por exemplo dos múltiplos usos da casa que já foi moradia e consultório, oficina de marcenaria, repartição pública, casa das sombrinhas e bordel. Tudo isso pode ser encontrado, não apenas na crônica histórica ou nos anúncios de jornais, mas nas paredes, como inscrições que camadas de tintas superpostas deixam entrever no trabalho paciente do restaurador, como explica Gilmar de Carvalho. O Sobrado é testemunha das passagens do tempo na capital cearense e incorpora a arqueologia de uma cidade e retoma sua forma original, adaptado a novos usos, o de Museu, por iniciativa do Governo do Estado, com apoio e chancela do Instituto Oi Futuro. A permanência do Sobrado nos faz pensar em uma fortaleza que conservou a sua memória e com elas muitos vestígios de sua história. O Sobrado não é apenas uma condensação de lembranças é uma espécie de sentinela do tempo de um lugar que acolheu ao longo dos mais de cento e cinquenta anos, pessoas com diferentes anseios, expectativas, medos e sonhos.


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