quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Dos bordeis aos palcos


Pedro Guedes (à esq.) na coreografia de jazz da Academia de Dança FB no Festival Passo da Arte 2011

Conhecido por ser uma das bases do rock, o jazz é um tipo de música que surgiu nos Estados Unidos no início do século XX. O estilo musical que veio das músicas cantadas pelos negros enquanto trabalhavam, popularizou-se e passou a ser dançado nos bares e bordéis do País na década de 60. A partir de então, “o ritmo começou a ser lecionado nos centros e academias de dança. O jazz dance foi se tornando cada vez mais acessível e conhecido do público a partir da sua utilização em grandes shows musicais”, conta o bailarino e assistente de coreografia Pedro Guedes.

Lia Ary

Assim como as demais danças modernas - explica Lia Ary, professora de jazz há 19 anos -, a modalidade se baseia no balé. “Tanto na nomenclatura dos passos, quantos nos princípios. A diferença da dança que ensino é o estilo de música que a gente usa nas aulas”. Essas canções variam do blues ao pop. As possibilidades abrangem trilha sonora de filmes, sons regionais, músicas instrumentais. Por isso a dança também ganhou variações. “Um exemplo delas, o lirical jazz, é dançado somente com músicas lentas e emotivas, em que a emoção do bailarino deve prevalecer na coreografia. Existe também o funk jazz, que seria uma mistura do jazz dance com os movimentos do hip-hop e que hoje é muito apreciado pelas academias dos Estados Unidos”, revela Guedes. Mesmo com tanta diversidade, é possível delimitar os quatro principais estilo da dança:  jazz clássico, jazz theatre, jazz latino e jazz lírico (clique aqui para conhecer melhor cada um).
Pedro Guedes

Devido ao elevado nível técnico da modalidade, os coreógrafos e bailarinos que a dançam são os mais cobiçados pelo teatro da Broadway, um dos palcos profissionais mais prestigiados do mundo. Não é à toa que os maiores nomes do jazz se encontram nos Estados Unidos, onde fica a Broadway.

Mas não é necessário estar na Terra do Tio Sam para aprender jazz. Seu ensino já é bastante popular aqui no Brasil e para dançá-lo não existe restrição de idade. “Mas os bailarinos profissionais devem ser, de fato, mais magros, com os corpos mais esguios”, explica Guedes. Ingrid Egidyo, 19, por exemplo, dança jazz desde os três anos e revela que mantém a alimentação regrada. Além do cuidado com o corpo, Pedro Guedes também ressalta: “pessoas que vêm do ensino de balé e passam a praticar o jazz depois de mais velhas, têm mais facilidade em dançar a modalidade”.

Assista a um vídeo da academia de dança em que Pedro Guedes pratica jazz.

Gostou da dança?! Então veja onde você pode praticá-la:


Visualizar Locais para praticar jazz em um mapa maior

Texto: Marília Pedroza e Renata Frota

terça-feira, 22 de novembro de 2011

É possível viver de arte em Fortaleza?

Giba Ilhabela em seu ateliê
“Fazer arte é o meu trabalho”, sentenciou o artista plástico Giba Ilhabela. Transformar sua produção em fonte de renda e conseguir sobreviver do talento é um grande desafio que se impõe aos artistas em todos os lugares do mundo, desde tempos remotos. Apesar da dificuldade, alguns artistas em Fortaleza conseguem superar esses obstáculos com criatividade.

Gilberto Gomes Pinna nasceu em Ilhabela, litoral norte de São Paulo, de onde veio a carinhosa alcunha. O desenhista e pintor sempre nutriu uma paixão por Fortaleza que tem origem, principalmente, de sua ligação familiar e identificação com a temática do mar e dos jangadeiros. Apesar do carinho pela cidade, o artista ainda encontra dificuldades para ganhar o mercado local com suas obras.

“Fortaleza tem um circuíto muito fechado, com muitas panelinhas. A cidade tem uma ótima estrutura que ainda é mal aproveitada”, avaliou. Com a dificuldade de ter acesso ao circuito de arte local e devido o alto custo para expor em galerias reconhecidas, onde os marchand's chegam a cobrar um percentual de 50% do valor das peças, Giba ainda não conseguiu o reconhecimento desejado no cenário fortalezense e tem a maioria das encomendas vindas de São Paulo.

Giba mostra sua obra
Para garantir sua subsistência, Giba Ilhabela resolveu pintar santos tradicionais sob encomenda, pois assim acredita não comprometer sua qualidade artística e, ao mesmo tempo, encontra um bom público. “Criei junto com meu filho, que é publicitário, o Pinnateliê, onde a gente faz criações publicitarias de diversos tipos, desde de pinturas para locais comerciais até, por exemplo, o boneco da campanha de um futuro candidato a vereador”, revelou.

Para preservar a diferenciação de sua obra artística mais pura dos seus trabalhos publicitários e as pinturas de santos, ele utiliza pseudônimos. O artista revelou um cuidado necessário que ele tem com sua obra para não vulgarizar. “Como acontece em São Paulo e em todo canto, na beira-mar tem artistas de qualidade duvidosa e expor ali pode depor contra meu trabalho. Peças que eu vendo, por exemplo, em São Paulo por R$ 1000, lá vou vender por duzentos”.

Apesar deste cuidado, o artista considera fundamental a obra ser exposta e trazer a população para perto da arte. “Realizei uma exposição no salão de eventos do condomínio onde moro, chamada 'Arte para Vida', distribuí convites, mas poucas pessoas vieram prestigiar”. Sem desistir, Giba encabeça alguns projetos sociais, entre eles o “Muros e Fachadas”, onde pretende trabalhar com crianças com necessidades especiais.

Dificuldades com as políticas públicas


Narciso Jr. em cena

Apesar de algumas políticas públicas pontuais de fomento artístico, como os editais para música, cinema, teatro e outras expressões, os artistas fortalezenses reclamam das dificuldades de acesso a esse sistema. “Nos do grupo Abre Alas já tentamos algumas vezes e infelizmente não conseguimos. O que a gente vê é que as pessoas que estão ganhando esses editais já sabem mais ou menos o caminho que tem que percorrer para ganhar. Sabem o tipo de proposta para fazer, os lugares que tem que ir, além de contatos já feitos”, indigna-se o ator Narciso Júnior.

Com mais de 10 anos de experiência no teatro, o ator do grupo Abre Alas procura outras formas de se sustentar sem abandonar a arte. “Nós atores costumamos dizer que a gente não vive de teatro, mas sobrevive. Existem casos de pessoas que já conseguem uma grana legal e uma vida mais estável com o teatro, mas não são muitos. Nosso dinheiro geralmente vem da bilheteria e nem sempre é o esperado, como alternativa, eu me especializei e sou professor de teatro”, revelou.

Naciso: luta pela arte
O ator esclarece como a companhia Abre Alas, a qual pertence, faz para sobreviver no mercado sem o apoio das políticas públicas. “Como a gente já é muito antigo, temos um grande repertório de espetáculos de onde reaproveitamos cenários, figurinos, economizando tempo de ensaio e gastos em produção. Mesmo assim, muitas vezes o espetáculo só se paga. Mas, graças a Deus, a gente vem conseguindo e, pelo menos, dá para manter o grupo”.


Uma forma encontrada para amenizar os gastos é procurar empresas para patrocinar. “Quando as empresas patrocinam nunca é diretamente com dinheiro, mas dando apoio com os figurinos, cenários, locações e etc”. Para garantir trabalho para o ano todo, as companhias criaram algumas alternativas. “Buscamos as empresas, corporações, aniversários, eventos particulares, escolas e, dessa maneira, temos um calendário de apresentações”.



Música: quase um monopólio


Banda Estado Anestesia comemora divulgação em jornal
Grandes conglomerados empresariais dominam o mercado musical em Fortaleza. Estruturas gigantescas, que incluem casas de show, rádios, estúdios e todo aparato tecnológico desde equipamentos de som, iluminação e transporte fazem com que o domínio do chamado “forró eletrônico” seja quase absoluto em Fortaleza.

Buscando seu espaço, quem deseja fazer uma música em outro estilo encontra enormes barrerias. A banda Estado Anestesia vem desde 2004 buscando seu espaço na cena underground da cidade. “Muito difícil viver de música, principalmente com o rock. Se a gente pudesse iria viver trabalhando só com a banda, mas ainda não dá. Todos nós temos outras atividades. Toda hora a gente pensa em desistir, mas ai não passa um mês e recomeça”.

Para não se afastar da música, o vocalista se especializou em trabalhar nas backstages dos shows e festivais das bandas que já tem nome forte no mercado, trabalhando como roddie e técnico de som. “O que eu recomendo para todo mundo é união. Nos juntamos à Panela Discos, que é uma produtora pioneira nesse estilo aqui. Com a outras bandas, a gente promove shows, faz a divulgação e até conseguimos um espaço em uma rádio”, recomenda o músico.

Outra forma inovadora encontrada pela banda foi gravar seu próprio CD, após montar um estúdio caseiro. “Como não temos dinheiro para uma produção cara em estúdios, montamos um home stúdio e com a ajuda de um primo meu que é produtor conseguimos gravar o primeiro EP, que se chama Fúria, e vamos gravar o CD todo nesse esquema”, revelou.
Estado Anestesia no palco com a produção da Panela Discos


Sobre o espaço na mídia, Marcos Daniel lamentou: “Colocar uma música na rádio é muito difícil, mas uma vez com a ajuda da produtora e a união das bandas conseguimos um espaço de uma hora por semana na rádio, onde conseguimos colocar nossas músicas”. O vocalista se refere ao programa Cidade do Rock, que é veiculado na FM 99.1, rádio Cidade, todos os domingos das 19:00 às 20 horas. Ele considera que outra ferramenta importante para a divulgação são as novas mídias. “Temos Facebook, Myspace e Vimeo... Não podemos se abster de qualquer tipo de mídia”.







Arte do instantâneo



Inspiração para músicas, filmes, livros e até samba-enredo, a fotografia desperta paixão e está cada vez mais presente no nosso cotidiano. Muito além de uma reprodução por meio de exposição luminosa, ela se tornou uma arte, a arte de eternizar o momento, uma arte instantânea e natural, sem truques e única. Apesar dessa singularidade, desde o momento do click, a fotografia possui vários significados, um para cada olhar ou momento.

Antes restrita a um público reduzido, no século XXI as máquinas fotográficas e, consequentemente, as fotos se multiplicaram, contribuindo para a popularização da “arte do instantâneo”. Atualmente, é irreal pensar que uma pessoa não conviva diariamente com uma câmera. Hoje, ela cabe no bolso ou dentro de um telefone celular.


“Um dos primeiros instintos dos pais, depois de pôr um filho no mundo, é o de fotografá-lo; e dada a rapidez do crescimento torna-se necessário fotografá-lo com frequência, pois nada é mais transitório e irrecordável do que uma criança de seis meses, rapidamente apagada e substituída pela de oito meses e, depois, pela de um ano; e toda a perfeição que aos olhos dos pais um filho de três anos pode ter atingido não é suficiente para impedir que suceda a ela, destruindo-a, a nova perfeição doa quatro, só restando o álbum fotográfico como lugar onde todas essas perfeições fugazes se salvam e se justapõem, cada uma aspirando a um absoluto próprio incomparável”. Ítalo Calvino

É esta evolução que empolga o fotógrafo cearense Carlos Eugênio Rocha. “Claro que guardo a nostalgia das máquinas analógicas, mas me animo ao ver todos com a possibilidade de fotografar. É impressionante como surge material de qualidade partindo de câmeras que você nem imagina”.

Contudo, o profissional vê uma disputa no mundo da fotografia. Uma vertente abole o avanço tecnológico, enquanto outra, na qual declaradamente faz parte, vê com entusiasmo a realidade atual.


Vida de fotógrafo
Carlos Eugênio nasceu em uma família apaixonada pela fotografia. Desde criança, seu contato com as câmeras, ainda gigantescas e pesadas para um garoto, aconteceu através do seu pai, que compartilha da profissão e serve como inspiração.

“Nas mais remotas lembranças da minha infância, lembro de conviver diariamente com uma câmera. Meu pai, que até hoje trabalha no meio, é um apaixonado por fotografias e por fotografar e acabava levando isso para casa. Lembro dele fotografando todos os momentos da minha vida, hoje chegou a vez das netas passarem por isso”, assegurou Carlos, que não esconde de onde surgiu sua paixão pela profissão: “Surgiu naturalmente.Não sei se está no meu DNA, se foi a presença constante da fotografia ou se a inspiração que tenho no meu pai. Mas ainda pequeno resolvi fazer isso e, também na infância, o acompanhava nos trabalhos”.

Após fotografar “na rua”, hoje, Carlos Eugênio possui uma produtora e encara outro dilema na profissão. Para alguns profissionais da área, há uma ideia de que fotógrafo é aquele que fotografa a realidade, que está nos becos da cidade. Entretanto, existem aqueles que vivem de fotografar grandes momentos, contudo, momentos pessoais, como casamento ou aniversário. O cearense, que já esteve dos dois lados, trata isso com naturalidade.

“O passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita na medida em que foi fotografada é curtíssimo”.
Ítalo Calvino
“Já estive na rua e hoje estou nos buffet’s. Claro que há uma diferença entre as duas coisas, mas é tudo fotografia. Falam que devemos fotografar a realidade, mas nunca ninguém me provou que o que eu fotografo hoje é irreal e imaginário. São vertentes, uma podemos chamar de fotojornalismo, a outra é a simples arte de guardar o momento. Isso acontece com os textos, nem todos possuem conteúdo jornalístico, e nem por isso há uma guerra entre os profissionais da língua”.

Amante desta arte e com laço emocional e profissional, Carlos não esconde que tem dificuldade para definir o que é a fotografia e tudo o que ela representa, mas, ainda sim, com brilho nos olhos e enquanto a mente viaja pelas fases de sua vida, ele tenta.
“A realidade fotografada assume logo um caráter saudoso, de alegria sumida na asa do tempo, um caráter comemorativo, mesmo se é uma foto de anteontem. E a vida que você vive para fotografar já é desde o princípio comemoração de si mesma. Achar que o instantâneo é mais verdadeiro que o retrato posado é um preconceito”.
Ítalo Calvino
“Fotografia é o que mais se aproxima de uma das melhores criações de Deus, a memória. É ela que o jovem casal de namorados beija quando vão dormir. É ela que torna a saudade menos dolorida para um pai distante do seu filho. É ela que vale mais que mil palavras. Para mim, representa a vida, foi assim que meu pai sustentou sua família e é assim que eu sustento a minha. Essa é a arte do instantâneo”.

Galeria de fotos: Natinho Rodrigues