quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Dos bordeis aos palcos


Pedro Guedes (à esq.) na coreografia de jazz da Academia de Dança FB no Festival Passo da Arte 2011

Conhecido por ser uma das bases do rock, o jazz é um tipo de música que surgiu nos Estados Unidos no início do século XX. O estilo musical que veio das músicas cantadas pelos negros enquanto trabalhavam, popularizou-se e passou a ser dançado nos bares e bordéis do País na década de 60. A partir de então, “o ritmo começou a ser lecionado nos centros e academias de dança. O jazz dance foi se tornando cada vez mais acessível e conhecido do público a partir da sua utilização em grandes shows musicais”, conta o bailarino e assistente de coreografia Pedro Guedes.

Lia Ary

Assim como as demais danças modernas - explica Lia Ary, professora de jazz há 19 anos -, a modalidade se baseia no balé. “Tanto na nomenclatura dos passos, quantos nos princípios. A diferença da dança que ensino é o estilo de música que a gente usa nas aulas”. Essas canções variam do blues ao pop. As possibilidades abrangem trilha sonora de filmes, sons regionais, músicas instrumentais. Por isso a dança também ganhou variações. “Um exemplo delas, o lirical jazz, é dançado somente com músicas lentas e emotivas, em que a emoção do bailarino deve prevalecer na coreografia. Existe também o funk jazz, que seria uma mistura do jazz dance com os movimentos do hip-hop e que hoje é muito apreciado pelas academias dos Estados Unidos”, revela Guedes. Mesmo com tanta diversidade, é possível delimitar os quatro principais estilo da dança:  jazz clássico, jazz theatre, jazz latino e jazz lírico (clique aqui para conhecer melhor cada um).
Pedro Guedes

Devido ao elevado nível técnico da modalidade, os coreógrafos e bailarinos que a dançam são os mais cobiçados pelo teatro da Broadway, um dos palcos profissionais mais prestigiados do mundo. Não é à toa que os maiores nomes do jazz se encontram nos Estados Unidos, onde fica a Broadway.

Mas não é necessário estar na Terra do Tio Sam para aprender jazz. Seu ensino já é bastante popular aqui no Brasil e para dançá-lo não existe restrição de idade. “Mas os bailarinos profissionais devem ser, de fato, mais magros, com os corpos mais esguios”, explica Guedes. Ingrid Egidyo, 19, por exemplo, dança jazz desde os três anos e revela que mantém a alimentação regrada. Além do cuidado com o corpo, Pedro Guedes também ressalta: “pessoas que vêm do ensino de balé e passam a praticar o jazz depois de mais velhas, têm mais facilidade em dançar a modalidade”.

Assista a um vídeo da academia de dança em que Pedro Guedes pratica jazz.

Gostou da dança?! Então veja onde você pode praticá-la:


Visualizar Locais para praticar jazz em um mapa maior

Texto: Marília Pedroza e Renata Frota

terça-feira, 22 de novembro de 2011

É possível viver de arte em Fortaleza?

Giba Ilhabela em seu ateliê
“Fazer arte é o meu trabalho”, sentenciou o artista plástico Giba Ilhabela. Transformar sua produção em fonte de renda e conseguir sobreviver do talento é um grande desafio que se impõe aos artistas em todos os lugares do mundo, desde tempos remotos. Apesar da dificuldade, alguns artistas em Fortaleza conseguem superar esses obstáculos com criatividade.

Gilberto Gomes Pinna nasceu em Ilhabela, litoral norte de São Paulo, de onde veio a carinhosa alcunha. O desenhista e pintor sempre nutriu uma paixão por Fortaleza que tem origem, principalmente, de sua ligação familiar e identificação com a temática do mar e dos jangadeiros. Apesar do carinho pela cidade, o artista ainda encontra dificuldades para ganhar o mercado local com suas obras.

“Fortaleza tem um circuíto muito fechado, com muitas panelinhas. A cidade tem uma ótima estrutura que ainda é mal aproveitada”, avaliou. Com a dificuldade de ter acesso ao circuito de arte local e devido o alto custo para expor em galerias reconhecidas, onde os marchand's chegam a cobrar um percentual de 50% do valor das peças, Giba ainda não conseguiu o reconhecimento desejado no cenário fortalezense e tem a maioria das encomendas vindas de São Paulo.

Giba mostra sua obra
Para garantir sua subsistência, Giba Ilhabela resolveu pintar santos tradicionais sob encomenda, pois assim acredita não comprometer sua qualidade artística e, ao mesmo tempo, encontra um bom público. “Criei junto com meu filho, que é publicitário, o Pinnateliê, onde a gente faz criações publicitarias de diversos tipos, desde de pinturas para locais comerciais até, por exemplo, o boneco da campanha de um futuro candidato a vereador”, revelou.

Para preservar a diferenciação de sua obra artística mais pura dos seus trabalhos publicitários e as pinturas de santos, ele utiliza pseudônimos. O artista revelou um cuidado necessário que ele tem com sua obra para não vulgarizar. “Como acontece em São Paulo e em todo canto, na beira-mar tem artistas de qualidade duvidosa e expor ali pode depor contra meu trabalho. Peças que eu vendo, por exemplo, em São Paulo por R$ 1000, lá vou vender por duzentos”.

Apesar deste cuidado, o artista considera fundamental a obra ser exposta e trazer a população para perto da arte. “Realizei uma exposição no salão de eventos do condomínio onde moro, chamada 'Arte para Vida', distribuí convites, mas poucas pessoas vieram prestigiar”. Sem desistir, Giba encabeça alguns projetos sociais, entre eles o “Muros e Fachadas”, onde pretende trabalhar com crianças com necessidades especiais.

Dificuldades com as políticas públicas


Narciso Jr. em cena

Apesar de algumas políticas públicas pontuais de fomento artístico, como os editais para música, cinema, teatro e outras expressões, os artistas fortalezenses reclamam das dificuldades de acesso a esse sistema. “Nos do grupo Abre Alas já tentamos algumas vezes e infelizmente não conseguimos. O que a gente vê é que as pessoas que estão ganhando esses editais já sabem mais ou menos o caminho que tem que percorrer para ganhar. Sabem o tipo de proposta para fazer, os lugares que tem que ir, além de contatos já feitos”, indigna-se o ator Narciso Júnior.

Com mais de 10 anos de experiência no teatro, o ator do grupo Abre Alas procura outras formas de se sustentar sem abandonar a arte. “Nós atores costumamos dizer que a gente não vive de teatro, mas sobrevive. Existem casos de pessoas que já conseguem uma grana legal e uma vida mais estável com o teatro, mas não são muitos. Nosso dinheiro geralmente vem da bilheteria e nem sempre é o esperado, como alternativa, eu me especializei e sou professor de teatro”, revelou.

Naciso: luta pela arte
O ator esclarece como a companhia Abre Alas, a qual pertence, faz para sobreviver no mercado sem o apoio das políticas públicas. “Como a gente já é muito antigo, temos um grande repertório de espetáculos de onde reaproveitamos cenários, figurinos, economizando tempo de ensaio e gastos em produção. Mesmo assim, muitas vezes o espetáculo só se paga. Mas, graças a Deus, a gente vem conseguindo e, pelo menos, dá para manter o grupo”.


Uma forma encontrada para amenizar os gastos é procurar empresas para patrocinar. “Quando as empresas patrocinam nunca é diretamente com dinheiro, mas dando apoio com os figurinos, cenários, locações e etc”. Para garantir trabalho para o ano todo, as companhias criaram algumas alternativas. “Buscamos as empresas, corporações, aniversários, eventos particulares, escolas e, dessa maneira, temos um calendário de apresentações”.



Música: quase um monopólio


Banda Estado Anestesia comemora divulgação em jornal
Grandes conglomerados empresariais dominam o mercado musical em Fortaleza. Estruturas gigantescas, que incluem casas de show, rádios, estúdios e todo aparato tecnológico desde equipamentos de som, iluminação e transporte fazem com que o domínio do chamado “forró eletrônico” seja quase absoluto em Fortaleza.

Buscando seu espaço, quem deseja fazer uma música em outro estilo encontra enormes barrerias. A banda Estado Anestesia vem desde 2004 buscando seu espaço na cena underground da cidade. “Muito difícil viver de música, principalmente com o rock. Se a gente pudesse iria viver trabalhando só com a banda, mas ainda não dá. Todos nós temos outras atividades. Toda hora a gente pensa em desistir, mas ai não passa um mês e recomeça”.

Para não se afastar da música, o vocalista se especializou em trabalhar nas backstages dos shows e festivais das bandas que já tem nome forte no mercado, trabalhando como roddie e técnico de som. “O que eu recomendo para todo mundo é união. Nos juntamos à Panela Discos, que é uma produtora pioneira nesse estilo aqui. Com a outras bandas, a gente promove shows, faz a divulgação e até conseguimos um espaço em uma rádio”, recomenda o músico.

Outra forma inovadora encontrada pela banda foi gravar seu próprio CD, após montar um estúdio caseiro. “Como não temos dinheiro para uma produção cara em estúdios, montamos um home stúdio e com a ajuda de um primo meu que é produtor conseguimos gravar o primeiro EP, que se chama Fúria, e vamos gravar o CD todo nesse esquema”, revelou.
Estado Anestesia no palco com a produção da Panela Discos


Sobre o espaço na mídia, Marcos Daniel lamentou: “Colocar uma música na rádio é muito difícil, mas uma vez com a ajuda da produtora e a união das bandas conseguimos um espaço de uma hora por semana na rádio, onde conseguimos colocar nossas músicas”. O vocalista se refere ao programa Cidade do Rock, que é veiculado na FM 99.1, rádio Cidade, todos os domingos das 19:00 às 20 horas. Ele considera que outra ferramenta importante para a divulgação são as novas mídias. “Temos Facebook, Myspace e Vimeo... Não podemos se abster de qualquer tipo de mídia”.







Arte do instantâneo



Inspiração para músicas, filmes, livros e até samba-enredo, a fotografia desperta paixão e está cada vez mais presente no nosso cotidiano. Muito além de uma reprodução por meio de exposição luminosa, ela se tornou uma arte, a arte de eternizar o momento, uma arte instantânea e natural, sem truques e única. Apesar dessa singularidade, desde o momento do click, a fotografia possui vários significados, um para cada olhar ou momento.

Antes restrita a um público reduzido, no século XXI as máquinas fotográficas e, consequentemente, as fotos se multiplicaram, contribuindo para a popularização da “arte do instantâneo”. Atualmente, é irreal pensar que uma pessoa não conviva diariamente com uma câmera. Hoje, ela cabe no bolso ou dentro de um telefone celular.


“Um dos primeiros instintos dos pais, depois de pôr um filho no mundo, é o de fotografá-lo; e dada a rapidez do crescimento torna-se necessário fotografá-lo com frequência, pois nada é mais transitório e irrecordável do que uma criança de seis meses, rapidamente apagada e substituída pela de oito meses e, depois, pela de um ano; e toda a perfeição que aos olhos dos pais um filho de três anos pode ter atingido não é suficiente para impedir que suceda a ela, destruindo-a, a nova perfeição doa quatro, só restando o álbum fotográfico como lugar onde todas essas perfeições fugazes se salvam e se justapõem, cada uma aspirando a um absoluto próprio incomparável”. Ítalo Calvino

É esta evolução que empolga o fotógrafo cearense Carlos Eugênio Rocha. “Claro que guardo a nostalgia das máquinas analógicas, mas me animo ao ver todos com a possibilidade de fotografar. É impressionante como surge material de qualidade partindo de câmeras que você nem imagina”.

Contudo, o profissional vê uma disputa no mundo da fotografia. Uma vertente abole o avanço tecnológico, enquanto outra, na qual declaradamente faz parte, vê com entusiasmo a realidade atual.


Vida de fotógrafo
Carlos Eugênio nasceu em uma família apaixonada pela fotografia. Desde criança, seu contato com as câmeras, ainda gigantescas e pesadas para um garoto, aconteceu através do seu pai, que compartilha da profissão e serve como inspiração.

“Nas mais remotas lembranças da minha infância, lembro de conviver diariamente com uma câmera. Meu pai, que até hoje trabalha no meio, é um apaixonado por fotografias e por fotografar e acabava levando isso para casa. Lembro dele fotografando todos os momentos da minha vida, hoje chegou a vez das netas passarem por isso”, assegurou Carlos, que não esconde de onde surgiu sua paixão pela profissão: “Surgiu naturalmente.Não sei se está no meu DNA, se foi a presença constante da fotografia ou se a inspiração que tenho no meu pai. Mas ainda pequeno resolvi fazer isso e, também na infância, o acompanhava nos trabalhos”.

Após fotografar “na rua”, hoje, Carlos Eugênio possui uma produtora e encara outro dilema na profissão. Para alguns profissionais da área, há uma ideia de que fotógrafo é aquele que fotografa a realidade, que está nos becos da cidade. Entretanto, existem aqueles que vivem de fotografar grandes momentos, contudo, momentos pessoais, como casamento ou aniversário. O cearense, que já esteve dos dois lados, trata isso com naturalidade.

“O passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita na medida em que foi fotografada é curtíssimo”.
Ítalo Calvino
“Já estive na rua e hoje estou nos buffet’s. Claro que há uma diferença entre as duas coisas, mas é tudo fotografia. Falam que devemos fotografar a realidade, mas nunca ninguém me provou que o que eu fotografo hoje é irreal e imaginário. São vertentes, uma podemos chamar de fotojornalismo, a outra é a simples arte de guardar o momento. Isso acontece com os textos, nem todos possuem conteúdo jornalístico, e nem por isso há uma guerra entre os profissionais da língua”.

Amante desta arte e com laço emocional e profissional, Carlos não esconde que tem dificuldade para definir o que é a fotografia e tudo o que ela representa, mas, ainda sim, com brilho nos olhos e enquanto a mente viaja pelas fases de sua vida, ele tenta.
“A realidade fotografada assume logo um caráter saudoso, de alegria sumida na asa do tempo, um caráter comemorativo, mesmo se é uma foto de anteontem. E a vida que você vive para fotografar já é desde o princípio comemoração de si mesma. Achar que o instantâneo é mais verdadeiro que o retrato posado é um preconceito”.
Ítalo Calvino
“Fotografia é o que mais se aproxima de uma das melhores criações de Deus, a memória. É ela que o jovem casal de namorados beija quando vão dormir. É ela que torna a saudade menos dolorida para um pai distante do seu filho. É ela que vale mais que mil palavras. Para mim, representa a vida, foi assim que meu pai sustentou sua família e é assim que eu sustento a minha. Essa é a arte do instantâneo”.

Galeria de fotos: Natinho Rodrigues

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Histórias e impressões em gravuras

"Claro - escuro renascentista em pleno sertão, contraste barroco entre a alegria e a dor, imagem talhada pela fé, como se a vida fosse reinventada cada vez que fosse impressa, como Verônica imprimiu a face de um Cristo no tecido de linho.

Imagens que só se completam quando entintadas e pressionadas sobre o papel, que de outro modo configuram apenas uma tábua marcada por escavações e cortes, flagelada pela dor que é criar, buscar todas as influências e lembranças possíveis, mergulhar no fundo mais fundo e trazer a idéia do traço que vai se transformar nessa imagem."

Gilmar de Carvalho



A xilogravura, uma das grandes representantes da cultura popular nordestina, foi uma das primeiras técnicas de gravação e impressão. Utilizada em capas de folhetos de cordel, sua gravação é feita sobre uma placa de madeira.  Embora não haja um consenso sobre o período de origem da xilogravura, sabe-se que seu uso nos primeiros folhetos de cordel surgiram no final do século XIX e, desde então, transformou-se em um ícone da nossa produção artística.

O Brasil só pôde desfrutar da xilogravura a partir de 1808, quando a Família Real veio para cá. Até então, era proibida a instalação de oficinas de impressão no país, alegando que a metrópole tinha condições de suprir a demanda da colônia. Algum tempo depois, houve uma tentativa oficial de ensino da xilogravura, abrindo-se a cadeira na Academia de Belas-Artes; entretanto, a disciplina nunca teve existência efetiva.

Em seguida, surgiu a chamada “gravura da arte”, com Lasar Segall, Osvaldo Goeldi e Livio Abramo. Esses artistas influenciaram, em maior ou menor escala, os gravadores e, principalmente, xilogravadores, que seguiam seu caminho. Entre eles, pode-se citar Renina Katz, Maria Bonomi, Marcello Grassman e Newton Cavalcanti.

Influenciada pela capacidade de reprodução de uma imagem em grande escala, a xilogravura passou a ser associada a manifestações populares, possuindo, quase sempre, um caráter expressionista e figurativo. Hoje,  ela atende a exigências estéticas modernistas e também contemporâneas e marca o trabalho de artistas como Audifax Rios e Rafael Limaverde, atraindo o interesse dos mais diversos públicos.

O psicólogo José Vasconcelos Filho, por exemplo, é um dos admiradores dessa arte. Ele conta porque a considera peculiar e do plano de utilizá-la para fazer seu ex-libris:
As imagens agradam por serem, ao mesmo tempo, simples e complexas. Fácil de fazer e até mesmo de improvisar – as imagens podem ser produzidas com uma batata ou melancia cortadas ao meio –, ela conquista cada vez mais adeptos em nosso Estado, e várias oficinas são oferecidas em Fortaleza. Também está em andamento a criação do Centro de Referência da Gravura no Ceará, que ficará localizado na casa em que nasceu Castelo Branco, na rua Sólon Pinheiro.

Eduardo Eloy coordenou, no ano passado, o curso Gravura – Oficinas em Rede, acredita que a produção cearense tem potencial. “O Ceará já tem gravura de bom nível. Nossa produção é boa, já disse a que veio”, afirma. O artista Rafael Limaverde é um grande exemplo – ele já realizou duas exposições individuais e desenvolveu logomarcas para a Prefeitura, como o do V Festival de Teatro de Fortaleza.





Embora ainda sofra algum preconceito, a xilogravura tem conquistado respeito e admiração ao longo dos anos e, mais do que uma técnica de reprodução, transformou-se na representação impressa da história, da cultura e dos anseios populares.  


Aprenda a fazer xilogravura:


Das artes marciais à arte da dança

O que leva um karateca virar um dos dançarinos mais famosos da cidade?! 
Aos 28 anos, o educador físico e dançarino Diego Borges é considerado um dos profissionais de dança mais requisitados do Ceará. A dedicação com as artes não começou com a dança, mas sim através da arte marcial: Karatê . 
Ainda na faculdade de educação física, Diego teve o primeiro contato com a dança de salão, mas, na época, suas metas e objetivos estavam sendo centralizados para o Karatê. Chegou até disputar vários campeonatos, inclusive em mundiais onde conquistou medalha de bronze em 2005.
Ao chegar em Fortaleza, Diego resolveu tirar férias do Karatê e decidiu entrar no projeto de dança de salão da Universidade Federal do Ceará, o "dançar faz bem" onde acabou se tornando professor anos depois. O último contato com o Karatê foi em 2008 no Campeonato Panamericano, onde acabou sofrendo uma lesão no dedo esquerdo do pé.




Pioneiro West Coast Swing no Ceará    
Em 2008 o dançarino começou a estudar mais sobre a dança que é considerada o "swing da costa oeste" , um ritmo original da California criado nos anos 40/50, e logo se tornou destaque no estilo de dança. Diego foi o primeiro nordestino que estudou o WCS, o primeiro brasileiro a ganhar competição nos EUA e ainda o primeiro cearense a participar da Dança dos Famosos do Programa do Faustão.

 O ritmo, pouco divulgado em nosso país, é um dos mais interessantes, empolga-se Diego: "a vantagem dele em cima dos outros ritmos é que a música consegue evoluir muito rápido. Pode ser dançado com músicas pops. São músicas que todos escutam, não é preciso ir atrás de um cd com esse ritmo, quase todos nós temos em casa músicas pops."


Primeira competição
Pela falta de domínio com a língua inglesa, ele lembra que foi muito engraçado participar da competição norte-americana, além da coincidência dos nomes: Swing Diego. O evento, realizado em maio do ano passado, foi uma experiência nova e bem divertida: "Eu viajei sozinho, todo mundo estava preocupado comigo e com meu inglês. Minha família e amigos me acompanhavam direto pela internet".
No Swing Diego, 130 homens e 130 mulheres participam da competição dançando uns com os outros e, por último, ficam 12 dançarinos na disputa. A sensação ao chegar na final, em dançar sozinho para um público grande e conseguir chegar na etapa mais importante, foram momentos únicos e jamais sentidos em outras ocasiões: "a sensação é muito boa, eu competi karatê a vida inteira..... Por eu estar muito pronto pro karatê, eu não sentia tanta emoção ... Na dança, eu fiquei nervoso e muito emocionado." Declara sorridente e satisfeito com a conquista.


Dança dos Famosos

Ainda comemorando sua vitória nos Estados Unidos, Diego soube que não tinha muito tempo para aterrissar no Rio de Janeiro. A produção do programa do Faustão pediu para que chegasse no dia seguinte para se apresentar. Ele lembra que a correria foi grande, mas conseguiu chegar no destino na hora: "eu corri para antecipar meu voo. Não consegui nem passar em casa. Foi muito corrido mesmo,mas foi muito bom. Uma fase inesquecível ."
Um dos momentos mais difíceis era de montar a coreografia, o dançarino pegava o CD em um domingo e já, na segunda, tinha que apresentar à sua aluna a música e começar a montar a coreografia.
Diego não chegou até a final das Danças dos Famosos, mas garante que foi uma fase única, de muito aprendizado que abriu portas para outros trabalhos.


Sucesso 
A música sempre esteve presente no lar familiar do educador físico, por isso não foi tão dificil ir adiante com a carreira de dançarino. O sucesso que veio rapidamente, logo após a sua participação da Danças dos Famosos, mudou a sua vida.
Após a saída do programa, ele não imaginava que ia ter tanta repercussão, principalmente porque, no Ceará, existem professores que dão aulas há mais de 10 anos e ele, que está apenas com 5 anos "no mercado", conseguiu crescer e desenvolver mais até do que outras pessoas.
Para ele, a dança significa uma grande liberdade de se expressar: "dança é a liberdade de você ser quem realmente é. As pessoas, quando estão dançando, mostram seu lado real. Os tímidos ficam extrovertidos, o calmo vira garanhão".
Ele não parou por aí, o significado de dança também é algo voltado para a arte: "a dança é a arte de transformar pessoas, é a arte de explorar o que cada um tem de melhor, é melhorar o que cada um já tem. Dança é mexer com mente, corpo e sentimento. É a arte de valorizar e descobrir o que cada um tem de melhor."


Surpresa
Pensando que a entrevista acabaria ali, Diego me convidou para ter a primeira aula de dança. Disponível logo mais abaixo.
Para quem quiser conhecer mais sobre o trabalho do dançarino é só entrar em contato através do e-mail: diegoborgeswcs@gmail.com



      

Mãos que transformam lixo em arte

Ele gosta de desenhar, de viajar, de conhecer pessoas, de observar e de surfar. E decidiu unir tudo isso na sua arte, sua forma de tentar melhorar o mundo. Artesão autônomo há seis anos, Franklin Ferreira, 41 anos, começou seus primeiros trabalhos manuais por influência de um amigo surfista. Fez uma peça decorativa de gesso ilustrando um surfista pegando uma onda. Mas foi além do caráter decorativo e, já pensando em maneiras de como não degradar o ambiente, começou a trabalhar com lixo eletrônico.Eu observei que pouca gente trabalha com lixo eletrônico. As pessoas abrem as peças e retiram alguns materiais encontrados dentro, como o cobre, mas não fazem nada com a carcaça”, recorda.


Atualmente, ele faz peças decorativas e funcionais e divulga seu trabalho através da marca Maré Verde, criada a partir do conceito de maré "que deve arrastar as pessoas para reutilizar a natureza (o verde)". Seu blog, existe há quatro anos e, de lá pra cá, Franklin já participou de várias exposições temáticas, concursos e já efetuou vendas pela internet para cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. 

“O curioso é que o pessoal daqui pergunta por que é tão caro e o do Sul pergunta por que é tão barato?! Acontece que uma idéia não tem preço... e dependendo do material utilizado, há peças que podem durar um tempo de até quatro gerações. Há uma incompreensão à respeito desse tipo de trabalho. A maioria das pessoas que fazem reciclagem, o fazem por modismo", explica o artesão.

Divulgando Fortaleza

Alguns de seus trabalhos ilustram pontos turísticos de Fortaleza, como a estátua de Iracema, a Ponte Metálica e o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. “Quando vou à São Paulo ou até mesmo à Jericoacoara, sempre levo comigo algumas peças que representam peculiaridades próprias daqui, da nossa terrinha”, orgulha-se.

Apagador de lousa, porta-guardanapo, porta-chave e tiara de cabelo são feitos com mouses. Teclados são transformados em telas. Cartões telefônicos em imã de geladeira. Garrafas pet formam um revisteiro e um garrafão d’água torna-se quase irreconhecível ao ser identificado como abajur. E há mais matéria-prima, como descreve o artesão: "Além desses, uso parafuso, tinta nankin, cola quente, alicate, ferro quente para abrir os furos, papel, tecido, lacre de latas de refrigerante, dentre outros, e muitos consigo através de doações. O legal é que o próprio design dos mouses e teclados ajuda na composição da arte final”.

Veja abaixo a produção de Franklin:


Já Társila Peixoto, artista plástica de 27 anos, transforma tudo o que toca, não apenas o que iria para o lixo em mãos comuns e descompromissadas com o meio ambiente.

Já tendo trabalhado com design de moda e design gráfico até 2010, atualmente Társi, como gosta de ser chamada, faz pesquisas sobre reciclagem e uso de materiais, assim como produz telas, porta-chaves e cartões sobrepondo diferentes materiais: “Procuro usar o que geralmente seria jogado fora. Ou mesmo coisas com as quais simplesmente não faríamos nada. Uso isopô, tinta, fita, lantejoula e diferentes tipos de papel".

Planos
 
Cursando Design de Interiores na Faculdade Integrada do Ceará, FIC, Társi planeja ainda trabalhar com design de produtos decorativos como móbiles feitos de garrafas pet, e com design gráfico, fazendo calendários e agendas a partir de material reciclado.

“Meu objetivo é transmitir mensagens positivas. Nos meus cartões há mensagens de paz, amor, e amizade. Acredito que são coisas alcançadas a partir da preservação da natureza e da conscientização de que é preciso utilizá-la de forma transformadora e responsável", conclui.



E reciclar não só é uma prática admirável como também fundamental no atual contexto cultural, social e econômico em que vivemos. Quem melhor explica sobre isso é o professor Albert Gradvohl, da disciplina de gestão ambiental do curso de Ciências Contábeis da Unifor:

Podcast Albert Gradvohl by user7242085

Arte urbana: breack, Dj, Mc e graffiti

Reaprendendo a escrever


"Hoje a gente vai treinar o alfabeto, cada um vai descobrir o seu estilo. O caderno é muito importante, não pode perder", foi assim que o professor, Davi Favela, começou a sua aula para cerca de 25 adolescentes que compareceram à escola, em um sábado às 9 horas da manhã, para aprender a grafitar.

Graffiti na delegacia do Bom Jardim



Estes alunos estão participando do Projeto Farol que acontece em toda a comunidade do Bom Jardim e conta com a orientação e coordenação geral de Roberto, que decidiu ajudar comunidades seguindo o exemplo de sua esposa, Geralda. “Minha esposa fazia trabalhos voluntários, ajudava pessoas nas comunidades, aí eu falei pra ela: Peraí, uma coisa não tá certa, bora se organizar, montar uma entidade. E a coisa foi crescendo e eu não estava mais satisfeito em ser engenheiro, aí eu me qualifiquei, e passei a assumir como professor. Sou de São Paulo, tô no Ceará por causa desse trabalho, isso aqui é minha razão de viver”.







O projeto aborda a identidade do Hip Hop e o aluno Evanildo, mais conhecido como Biboi Gurú, explica melhor esse movimento: “O hip-hop não é só música, mas sim a junção de quatro elementos: expressão corporal (breack), poesia (hap), música (Dj) e visual (graffiti)”. Este último surgiu em Nova York no fim da década de 60 e a maioria dos grafiteiros usava os tag’s (assinaturas) sempre com números que correspondiam a rua em que moravam ou o número da casa, exemplo disso era Tak 183, Phase 2 e Cope 2. Nos anos 80 o graffiti chega ao Brasil, em São Paulo, com os grafiteiros Os Gêmeos, que se tornaram reconhecidos até hoje com o spray, depois deles apareceram Binho, Tinho, Speto, Victhe, mas só em 1993, através do grafiteiro Flipjay, o graffiti chega ao Ceará.
Este ano o Brasil aprovou uma lei que tira o graffiti do código penal e o coloca como arte, mas muitos grafiteiros já sofreram alguns preconceitos, como explica Tubarão: “Quando comecei, em 99, era muito difícil pintar, muita repressão da polícia, essas coisas. As pessoas também não sabiam o que era graffiti, confundiam com pichação e quase nunca conseguíamos a liberação de muro, então, eram sempre trabalhos feito ilegalmente. Agora o preconceito é menor, mas ainda existe,[...] esse lance de arte e vandalismo, acredito que isso é taxar o graffiti, e não concordo com isso. Ele é um tipo de arte, mas uma arte voltada mais pro social e com caráter de rua mesmo, nossa arte é pública”.




Graffiti de Ice Rick


Grande parte dos grafiteiros de hoje, já foram pichadores e agora condenam sua antiga atividade. Um deles é Henrique, mais conhecido como Ice Rick, que é ex-pichador e diz que há uma grande diferença entre pichação e graffiti, para ele a arte de grafitar mostra algo bonito para a sociedade, já a pichação polui a cidade. Hoje, em cada obra de graffiti que desenha, coloca sempre uma boa mensagem para aquelas pessoas que olham e admiram sua arte.






Entrevista com Ice Rick (pichação e graffiti)



Arijonas, aluno do Projeto Farol, também é prova viva disto: “Eu já pichei muito e era tudo feito nas intoca, o grafite é diferente, é liberado. Aqui no bairro não tem nenhuma atividade, o único projeto que tem aqui para a pessoa se entreter é esse. Aprendi muita coisa já, não picho mais”. E não são só meninos que participam, é o que afirma a aprendiz de graffiti Ana Kézia: “Tô aprendendo muito, não sabia nada, e tem muita mulher aqui se envolvendo com graffiti, além de nós, tem mais meninas. Eu não vim aqui só pra me entreter, quero fazer graffiti profissional, sempre achei interessante, meu irmão já fazia e quando apareceu esse projeto, me inscrevi logo”. Diferente de Kézia, Flávio Santos não sonha em ser grafiteiro, seu desejo é trabalhar com odontologia: “Vim só pra aprender, já participei de um curso de artes plásticas no SENAC, mas desisti. Só que aqui, nesse projeto, é bem mais descontraído, mas não pretendo usar pra ganhar dinheiro”. Mesmo não desejando fazer sua carreira profissional no graffiti, Flávio finaliza: “o pessoal pensa que arte é uma coisa perfeita, mas arte é um sentimento”.


Davi Favela e Elenilse, organizadores do projeto


Os coordenadores do projeto também aprendem, a cada dia, mais sobre a arte de grafitar, é o que afirma Elenilse, cantora do grupo Afoxé Acabaca e faz o apoio pedagógico do projeto: “Tô aprendendo muito junto com o Davi Favela, percebi a diferença entre pichação e grafite. O grafite só se faz se o dono do muro consentir, pra pichar o cara não faz isso. No grafite você consegue fazer a leitura, ele passa uma coisa boa, já a pichação faz com que a pessoa arrisque sua vida. Próximo lá de casa, um menino de 16 anos resolveu pichar numa parte bem alta de um prédio, virou de cabeça pra baixo, caiu e morreu. Já vi até um aluno me dizendo que conseguia pegar numa arma pra dá um tiro, mas não conseguia pegar na lata de spray, porque se tremia todo. Eu quero mudar isso, preparar o adolescente pra vida”.






O graffiti não é arte só para quem mora na favela, a arte de grafitar já foi debatida dentro de algumas escolas particulares, projetadas em grandes obras de arte, através do Graffiti Ren, é como conta Amanda Batista: “Minha professora, um dia, mostrou pra gente o grafite dentro da arte clássica, através dessas obras. Achei tudo muito lindo”.
E não é só pintar por divertimento, é como afirma Davi Favela: “Tem alunos meus fora (de Fortaleza), tem uns que tão ganhando mais dinheiro do que eu. Tem dois que estão viajando agora para o Juazeiro para pintar canga de praia, outros estão pintando tela. Tem uma aluna minha que trabalha em uma funerária, começou no graffiti, mas tá agora deixando os rostos dos defuntos mais bonitinhos, usando a mistura de cores que aprendeu. Ou seja, o graffiti é a porta e a gente utiliza a lata de spray como instrumento de inclusão social”.






Babau


Dia 19 de novembro, os alunos do Projeto Farol se reuniram na Praça do Ferreira com os adeptos do hip-hop para comemorar, antecipadamente, o Dia da Consciência Negra, 20/11. No evento, vários grupos se apresentaram e, cada um, tinha 30 minutos para mostrar simultaneamente todos os elementos do hip-hop, confirmando a união existente entre eles. É o que reforça Babau: “Autoestima o tempo todo, irmão. Vocês fazem parte de um todo, todos juntos nesse mesmo barco. A periferia é uma só, não é o rap, dança, graffiti, é tudo. Somos pobres, temos a mesma cor, muda só tonalidades, vocês têm que saber o que é consciência negra, têm que entender o que significa essa data, tem que pensar em hip-hop, ser preto 24 horas”.